PRÁTICA DE LEITURA NA EPEJA: TERTÚLIA LITERÁRIA DIALÓGICA NA UNAPI

Apresentação
A Tertúlia Literária Dialógica é uma atividade que compreende a leitura dos clássicos da literatura universal na perspectiva dialógica. Pode ser definida pela interação social entre as pessoas mediada pela linguagem. É um processo não apenas de leitura, mas também de diálogo, por meio do qual as pessoas podem ler, trocar ideias, aprender conjuntamente e produzir mais conhecimento, encontrando, assim, novos significados que transformam a linguagem e o conteúdo de suas vidas. O ler dialogicamente implica mover o centro do ato de significado de uma interação subjetiva entre a pessoa e o texto, em nível individual, para uma interação intersubjetiva em relação a este mesmo texto. Os estudos em torno da Tertúlia Literária Dialógica evidenciam que a aprendizagem, especialmente da leitura, depende de muitos elementos que vão além das abordagens metodológicas de ensino de leitura na escola, que prezam desde o processo cognitivo de decodificação, passando pela experiência intersubjetiva do ler.

Introdução
A Escola de Pessoas Adultas de la Verneda de Sant Marti, em Barcelona/Espanha, foi o local em que a Tertúlia Literária Dialógica nasceu. Tal escola surgiu a partir da mobilização de vizinhos, na metade dos anos 90 após, a ditadura de Franco (GIROTTO, 2007, p. 99), para viabilizar um espaço de convívio respeitoso, diálogo igualitário e acesso à educação para pessoas que vivenciavam diferentes tipos de exclusão. Receberam apoio do Centro de Investigação em Teorias e Práticas Superadoras de Desigualdades (CREA - Universidade de Barcelona ), cujos membros, ao vivenciarem a proposta de educação dialógica nesse e em outros contextos de modo articulado à sua responsabilidade acadêmica, formularam o conceito de aprendizagem dialógica. Dentre as formulações principais que deram origem e sustentam até hoje a Verneda, garantindo sua proposta transformadora, ressaltamos a de que “o público não universitário tem muito com o que contribuir com o panorama cultural de nossas sociedades” (FLECHA, 1997, p. 11) e que nunca é tarde para aprender, pois todos/as temos capacidade de fazê-lo ao longo da vida, na medida em que nosso contexto e relações corroborem com tais expectativas e vice-versa. Por isso é que a Verneda buscou e busca “recuperar a essência da educação de adultos iniciada no século XVIII em serões igualitários sem classificação nem assinaturas e nem papéis de professor e alunos” (ibid, p.73). Esse contexto de criação da Tertúlia Literária Dialógica, entre pessoas adultas, permite que a atividade afirme que tais pessoas podem ler, desfrutar e ampliar a leitura da palavra no texto literário clássico, dialogando sobre ela de modo articulado com suas leituras de mundo. O nome Tertúlia Literário Dialógica advém do sentido das palavras e da sua articulação: tertúlia significa encontro para conversar entre amigos; literária, para ler literatura; dialógica para dialogar para sobre o lido e a vida. Se por um lado o nome era excelente para designar a atividade, por outro a palavra literária afastava as pessoas, pelo seu peso social. Essa percepção foi elemento que fomentou o diálogo sobre a influência dos muros antidialógicos na vida das pessoas. Dele derivou a proposição de que há diferentes formas de relacionar-se com a literatura e, uma das mais importantes é dela desfrutar ao invés de apenas realizar um exame científico. Esse entendimento reaproximou as/os participantes e, com esse espírito, a Tertúlia se estruturou como espaço para que, gradativamente as pessoas se educassem para falar e não calar. Da relação direta, tu-à-tu, da leitura e do diálogo podem emergir diferentes saberes, num diálogo intercultural, rico e fértil em que as pessoas podem assumir suas condições de sujeito no mundo e com os outros. Assim, torna-se espaço para transformação pessoal e do entorno, ampliação da solidariedade e convívio, criação de sentido e igualdade de diferenças (GIROTTO, 2007). Assim, desejamos dar continuidade ao projeto desenvolvido na UNATI desde o ano 2013.

Objetivo Geral
Ampliar o processo de alfabetização de um grupo de estudantes da Educação de Pessoas Adultas da Universidade Aberta da Terceira Idade e auxiliá-los a desenvolver a leitura de mundo e a leitura da palavra por meio da leitura literária de obras clássicas

Objetivos Específicos
Promover o encontro semanal entre estudantes e coordenadora do projeto para aprofundar estudos referentes às obras centrais do projeto; 2. Auxiliar estudantes na criação de sentido para a leitura de livros como atividades culturais, de direito de todas as pessoas adultas 3- promover a leitura de literatura clássica com pessoas adultas da UNATI-UNIFAL; 4- auxiliar no processo inicial de alfabetização

Justificativa
Apresentamos a Tertúlia Literária Dialógica como uma atividade social, cultural e educativa, baseada na leitura de clássicos da literatura universal e no diálogo sobre o lido e o mundo da vida. Ao realizar-se com coletivos que vivenciam diferentes situações de exclusão, buscamos a superação de alguns muros antidialógicos, que, entre outras coisas, afirmam que apenas pessoas com alta escolaridade e, portanto, de classe social privilegiada, podem acessar e compreender a literatura clássica. O potencial transformador da Tertúlia advém dos princípios da aprendizagem dialógica que a orienta (FLECHA, 1997), são eles: diálogo igualitário; inteligência cultural; transformação; dimensão instrumental; criação de sentido; solidariedade; igualdade de diferenças. Na Tertúlia Literária Dialógica, as/os participantes não se relacionam com a literatura de forma colonizada , mas desfrutam da leitura, realizando diferentes interpretações e dialogando sobre elas, de modo articulado com suas vidas. Nesse processo, a leitura da palavra se amplia com o encontro das diferentes leituras de mundo, tornando a atividade espaço de formação humana e humanizadora. A Tertúlia Literária Dialógica surge então, na segunda metade dos anos 90, inspirada em iniciativas educativas literárias da própria população e passa a ser desenvolvida em diferentes tipos de entidades como: escolas de pessoas adultas, associações de mães e pais, grupo de mulheres, entidades culturais e educativas. A atividade chega ao Brasil através de vivências na Verneda de Sant-Martí por pessoas do NIASE, no ano de 2002 e no ano seguinte, em São Carlos, é iniciada na UATI (Universidade Aberta da Terceira Idade), com a participação de homens e mulheres de diferentes idades, grupos sociais e grau de escolaridade. A partir de então, a Tertúlia consolida-se como trabalho de extensão, formada por uma equipe multidisciplinar, que se organiza através de reuniões operacionais semanais, grupos de estudos da base teórica do projeto, bem como atuação nas distintas Tertúlias que acontecem em diferentes coletivos culturais e sociais, na cidade de São Carlos, sendo ambos os espaços de formação para a aprendizagem dialógica. A abertura de novos espaços de Tertúlia foi sendo gradativa com a apresentação do projeto para as diferentes comunidades, com o foco na educação de jovens e adultos e pessoas em situação de exclusão. Atualmente, na cidade de São Carlos a Tertúlia Literária Dialógica ocorre em diferentes espaços de formação educacional, em escolas municipais do ensino fundamental com crianças, professoras e familiares envolvidos (GIROTTO, 2011), centros comunitários etc. A tertúlia dialógica é uma atividade que se diferencia das demais práticas de leitura não apenas pelo seu caráter dialógico, mas também pela sua organização e funcionamento. Uma definição bem clara pode ser encontrada nas palavras de Flecha (1997): "A Tertúlia Literária se reúne em sessão semanal de duas horas. Decide-se conjuntamente o livro e a parte a comentar em cada próxima reunião. Todas as pessoas leem, refletem e conversam com familiares e amigos durante a semana. Cada uma traz um fragmento eleito para ler em voz alta e explicar o significado atribuído aquele parágrafo. O diálogo vai sendo construído a partir dessas contribuições. Os debates entre diferentes opiniões se resolvem apenas através de argumentos. Se todo o grupo chega a um acordo, ele se estabelece como a interpretação provisoriamente verdadeira. Caso não se chegue a um consenso, cada pessoa ou subgrupo mantém sua própria postura; não há ninguém que, por sua posição de poder, explique a concepção certa e a errônea. (FLECHA, 1997, p. 17 e 18)". Afirmo, ainda, que a experiência realizada nas tertúlias e algumas compreensões teóricas expostas anteriormente nos permitem encontrar evidências em estudos recentes orientados desde uma perspectiva dialógica, que vem indicando a participação das famílias nas atividades tanto acadêmica como cotidianas em que se tenha oportunidade de vivenciar práticas de leitura e escrita, dentro e fora da aula ou do centro educativo, como essenciais para gerar o aumento da aprendizagem do código escrito e ampliação do domínio das competências leitoras pelos adultos (VALLS, SOLER y FLECHA, 2008). Tais processos são possíveis, pela possibilidade da leitura se apresentar de forma contextualizada, supondo uma compreensão compartilhada e ainda promovendo a reflexão crítica, facilitando maior aquisição desta competência. A leitura torna-se, também, mais motivadora e tem sentido para as pessoas que estão em interação no marco de um diálogo que se propõe igualitário. (AGUILAR, et al., 2010). Com base nesses argumentos entendemos que a leitura dialógica promovida pela prática da tertúlia pode ser realizada em sala de aula, mas que não se esgota nesse espaço, vai mais além, adentrando os espaços da escola, da família, do bairro. Assim, na continuidade do projeto, destacamos sua realização na UNATI UNIFAL (alfabetização).

Beneficiário
- Pessoas adultas que são estudantes da Universidade Aberta da Terceira Idade - Estudantes da graduação da UNIFAL (presencial) - Pessoas da Comunidade local e geral