HISTÓRIAS DE QUANDO A ÁGUA CHEGOU

Apresentação
O sul de Minas Gerais possui um patrimônio histórico e cultural inestimável, no entanto, circunscrito à pesquisa individual de algumas pessoas ou à posse de algumas famílias tradicionais. Diante da necessidade de estudar formas de trazer à tona e ao conhecimento da comunidade as memórias de pessoas que vivenciaram o período de construção da Represa de Furnas, então considerada pela população como "o crime do século", este projeto tem por finalidade registrar, por meio da produção de um documentário, as histórias orais ligadas a este acontecimento, disponibilizando-o em um acervo cultural online da região sul-mineira.

Introdução
Desde a história da humanidade, passando pela cultura de povos e nações e, também, pelos mitos helênicos que inspiraram Homero em suas epopeias, a tradição oral esteve sempre presente. Deste modo, seria pertinente afirmar que a oralidade faz parte da civilização constituindo uma linguagem expressiva e uma fonte extraordinária de sabedoria popular. É sabido que as narrativas religiosas tradicionais da oralidade indiana e hebraica, entre outros povos, dão conta de um grande dilúvio que dizimou grande parte da população, purificando a face da Terra. No caso do Sul de Minas, algumas dessas histórias foram registradas pelos escritores Ildeu Manso Vieira, em seu romance Mandassaia, que buscou documentar os costumes e a linguagem da população ribeirinha, que mantinha suas crenças e tradições antes das profundas mudanças geográficas e sociais provocadas pela inundação das águas de Furnas. O dramaturgo Waldir de Luna Carneiro, que também presenciou na cidade de Alfenas todo o processo de implantação da hidrelétrica, desde o anúncio da obra até a inundação das terras, escreveu a comédia “A Represa” – encenada pela primeira vez em 1957 com o título “Na Boca das Furnas” e em outras duas montagens posteriores – e o roteiro para cinema “O Cristo Submerso” – ainda inédito devido aos custos de produção. A primeira história conta de modo bem-humorado a reação que as pessoas, principalmente os proprietários de terras que seriam alagadas, tiveram ao receber a notícia da construção da hidrelétrica. A outra conta o drama daqueles que tiveram que deixar suas casas, suas histórias e sua fé quando a inundação aconteceu. Muitas dessas histórias ainda estão sendo contadas às margens do Lago de Furnas e, algumas já esquecidas, voltam à memória e às rodas de conversa com o período de baixa no nível das águas, que deixa à mostra as ruínas de um passado submerso, conforme pode ser assistido no documentário “Alfenas e suas memórias submersas” (2018). Em Carmo do Rio Claro, município que teve 212,18 Km² de terras inundadas pelo Lago de Furnas, a maior extensão entre os municípios atingidos, estão alguns exemplos. Mas as histórias do Lago de Furnas não são ligadas somente à religiosidade das pessoas. Bem próximo a Itaci, fica a fazenda Panorama, onde o seu proprietário, Antônio Adauto Leite, também possui o registro de sua história profundamente ligada aos índios que habitavam a região muito antes da construção da barragem, e que já tivemos oportunidade de registrar e editar um documentário (2016). Ao registrar as histórias e disponibilizá-las à comunidade alfenense e do sul de Minas, resgata-se esse acervo cultural que poderá integrar como contribuição de futuros estudos culturais nas áreas do folclore, da literatura, da história e da sociologia e para o desenvolvimento de novas linguagens e ações extensivas dentro da Universidade Federal de Alfenas.

Objetivo Geral
Conhecer e resgatar outras histórias orais, originadas a partir da construção da barragem de Furnas, no Sul de Minas, contribuindo assim para o registro e preservação do patrimônio histórico e cultural da região.

Objetivos Específicos
Fazer um levantamento das histórias orais que ainda não foram registradas, visando a produção de um novo um documentário inédito em DVD, com depoimentos sobre a cidade de Fama (MG). Disponibilizar o material para pesquisas futuras nas áreas da sociologia, história, antropologia e literatura.

Justificativa
Desde a implantação da Usina Hidrelétrica de Furnas, as autoridades governamentais e a empresa Furnas Centrais Elétricas demonstraram preocupação em reduzir os impactos econômicos e ambientais gerados a partir da construção da barragem que originou o grande lago que cobriu mais de 1400 Km² de terras férteis. Contudo, ainda pouco foi feito com relação à preservação da cultura de tradição oral que havia na região e que também sofreu grandes impactos com a inundação, a partida de antigos moradores e a chegada de novos. Na fundamentação desta ação extensiva cultural, adotamos como estratégia de pesquisa a História de Vida, concebida como um “relato retrospectivo da experiência pessoal de um indivíduo, oral ou escrito, referente a fatos e acontecimentos que foram significativos e constitutivos de sua experiência vivida” (CHIZZOTTI, 2011, p.101). A partir desta estratégia, é possível desvelar atitudes, representações e valores individuais que reproduzem relações sociais mais amplas – permitindo, assim, captar o modo pelo qual os indivíduos resgataram os fios da memória a fim de tecer suas próprias histórias, modelando a sociedade e ao mesmo tempo sendo moldados por ela. Como instrumento de recolha e registro dos relatos orais, foram realizadas entrevistas presenciais filmadas, a partir da abordagem metodológica de História Oral, considerada uma técnica de coleta de dados calcada na realização de entrevistas gravadas com pessoas que podem testemunhar sobre fatos, acontecimentos, conjunturas, instituições, modos de vida e outros aspectos da história contemporânea (MEIHY, 2005). Nesse sentido, chega-se à compreensão de que a História Oral percorre as trilhas da Memória Coletiva, mais especificamente as veredas da memória representacional, que atribui “poder identitário” à comunidade estudada. Afinal, segundo Castells (2000, p.53), a identidade é a fonte de significado e experiência de um povo, construídas e negociadas no seio das estratégias de sobrevivência concernentes à memória. Ao produzir um documentário sobre as histórias orais ligadas aos impactos da construção da represa de Furnas na região sul-mineira, pretende-se, por um lado, fortalecer a memória associada a este acontecimento, incitando a reflexão acerca dos seus efeitos e, por outro, preservar e perpetuar conhecimentos que potencializem novas ações para o futuro. Segundo Nichols (2005), nestes documentários de não-ficção, as personagens são tratadas como atores sociais, pois continuam a viver sua rotina independentemente da presença ou não da câmera. O interesse do cineasta recai sobre a originalidade ou a maneira peculiar desses atores sociais de ver o mundo. Assim, podemos assistir ao mundo histórico que compartilhamos como se fosse filtrado pelas percepções particulares e legítimas desses indivíduos.

Beneficiário
Discentes, professores, estudantes, pesquisadores, pessoas da comunidade sul-mineira em geral.