(PER)CURSOS ORGANIZACIONAIS: DO SABER DA EXPERIÊNCIA A EXPERIÊNCIA DO SABER NA GESTÃO DE COMUNIDADES, ASSOCIAÇÕES E ECOVILAS

Apresentação
O projeto (Per)cursos organizacionais nasce de uma necessidade de alinhamento entre pesquisa, ensino e extensão identificada por meio do Projeto de Pesquisa (O2) Organizações Outras, com o qual tem estrita conexão. Durante a iniciativa de pesquisa, percebemos a necessidade de trabalharmos juntos com as organizações pesquisadas no intuito compartilhar saberes acadêmicos e saberes de experiência, nossos e de tais organizações, de forma que, atuando junto com elas, pudéssemos desenvolver métodos e tecnologias colaborativas de gestão de comunidades, associações e ecovilas. O ponto de apoio deste projeto é a experiência entendida como um saber-fazer, isto é, um saber que vem, que emerge do fazer. Tanto para nós, acadêmicos, quanto para os coletivos que encontramos no percurso, o saber sempre é construído a partir de um fazer. Nesse sentido, esperamos desenvolver atividades colaborativas com essas organizações e construir saberes coletivos sobre a gestão de organizações e suas peculiaridades

Introdução
As teorias administrativas do século XX fizeram – e ainda têm feito – um movimento de construção de um modelo único de administrar, tendo como referência uma noção determinada de racionalidade, de cientificidade, o que, por sua vez, implica num arranjo organizacional específico, conhecido como “organização formal burocrática”. O pensamento acadêmico dominante no campo da Administração elegeu a “organização formal burocrática” como a única forma possível e viável. Universalizou-se, assim, um modo de gerir ligado à valorização do crescimento econômico – mesmo que este seja incompatível com as dimensões sociais e ambientais de um dado território –, da racionalidade instrumental, que resulta, naquilo que Habermas (1968) chamou de “colonização do mundo da vida” pela lógica mercadológica/individualista. Assim, o que chamamos modernamente de “empresa” não é um arranjo que sempre existiu, desde que nós humanos habitamos o planeta. É uma construção dos homens datada no tempo. Propõe-se, pois, uma diferenciação entre “organização” e “empresa” . No entanto, essa diferença é apagada do imaginário popular – um fenômeno conhecido como naturalização ou reificação da realidade –, mas precisa ser retomada, uma vez que o objetivo do presente texto é estabelecer um pensamento crítico – que requer certo distanciamento de nossa própria sociedade atual e um entusiasmo com outro futuro possível – a respeito das práticas administrativas contemporâneas e de sua relação com a sobrevivência da espécie humana e com o estabelecimento de um mundo mais justo para o maior número de pessoas. Resumidamente, uma das principais consequências desse processo histórico é que a racionalidade instrumental se torna onipresente, na medida em que outras lógicas possíveis de organização da sociedade, da produção, tornam-se marginais e tem dificuldades de serem aceitas. A prevalência da racionalidade instrumental coloca em xeque o respeito aos direitos humanos universais/fundamentais – em detrimento de interesses particulares – e a tolerância a modos de viver/pensar distintos do hegemônico. Nesse sentido, objetivamos com esse projeto buscar formas de se gerir coletivos e comunidades fundamentadas em maneiras distintas dessas consideradas pelo discurso hegemônico. Propostas que se materializam em tecnologias próprias de um cotidiano organizacional e organizativo que passam ao largo das demandas e interesses do management e que possam nos ajudar a compor um quadro de saberes relativos a técnicas, ferramentas e discursos sobre a gestão que esteja a parte do que aprendemos com a lógica mercadológica/individualista.

Objetivo Geral
Construir e fortalecer conhecimentos sobre a gestão de coletivos de forma colaborativa a partir do diálogo entre diferentes saberes

Objetivos Específicos
• Proporcionar um espaço para que as comunidades, associações e ecovilas possam se aproximar e se apropriar dos recursos físicos e de conhecimento da Universidade, desenvolvendo, dessa forma, um espaço para a coprodução de conhecimentos sobre a gestão de coletivos, trocas de experiência e saberes entre a comunidade acadêmica e tais organizações; • Trabalhar junto a comunidades, associações e ecovilas no desenvolvimento de ferramentas conceituais e operadores analíticos que permitam desenvolver novas tecnologias sociais e de gestão que ampliem o repertório da organização de coletivos; • Realizar cursos, palestras, seminários e capacitações em parceira com as organizações; • Produzir pesquisas diagnósticas, avaliativas e participativas que sejam uteis aos parceiros; • Assessorar as organizações do terceiro setor; • Criar e fortalecer redes de conhecimento sobre gestão de coletivos e tecnologias colaborativas.

Justificativa
Cabe a nós, pesquisadores sintonizados com a crítica a “organização formal burocrática” buscar outras verdades, não absolutas e redutoras, sobre os arranjos possíveis para se organizar a vida em sociedade. Para Ibarra-Colado (2006), é preciso fomentar o pluralismo e os diferentes debates, inibindo o discurso monolítico e universal. Neste sentido, considerando-se a importância de se estudar alternativas ao modelo de desenvolvimento dominante, o interesse principal do projeto (Per)cursos organizacionais é atuar junto às organizações contrahegemônicas ou alternativas – conforme denominação adotada pelo Dossiê Temático (2017) –, aqui compreendidas como modelos não convencionais de organização coletiva e desenvolvimento territorial/local. Organizações cuja motivação para existir se distancia, em graus variáveis, da lógica da “empresa formal burocrática” – e, portanto, dos atributos que configuram uma racionalidade capitalista instrumental –, sendo, portanto, consideradas como um caminho de resistência à hegemonia dos modos de produção capitalistas. Conhecer e estudar experiências organizacionais alternativas “[...] pode significar o entendimento dos caminhos que trilham mudanças sociais maiores de confronto com a hegemonia da organização burocrática empresarial, ou talvez simplesmente possa levar ao entendimento de processos organizativos que vivem em permanente contradição com as práticas convencionais [...]” (DOSSIÊ TEMÁTICO, 2017, p. 2). Tais arranjos organizacionais não convencionais – ou contrahegemônicos, ou, ainda, alternativos – podem ser pensados a partir da perspectiva decolonial de Henrique Dussel. O filósofo quando versa sobre a totalidade, ou ontologia que é a ideologia das ideologias e que mantem o sistema colonial centro-periferia, aponta que a totalidade, o sistema, tende a totalizar-se, a autocentrar-se e a pretender, temporalmente, eternizar sua estrutura presente, e, espacialmente, incluir toda exterioridade possível (DUSSEL, 2005). A noção de totalidade ocidental inclui a dominância. Os heróis ocidentais dominadores manifestaram na terra os deuses – em outras épocas –, agora empreendem a democracia, a liberdade e a civilização como normas, promovendo a expansão dialético-dominadora do "Mesmo", que assassina "o Outro" e o totaliza no "Mesmo". Tal noção aponta a diferença como representação do não-ser, do caos e do mal. Desse modo, em nome da civilização, do desenvolvimento, do consumo, das “boas práticas” e de uma suposta modernização, a totalidade ocidental tem abarcado a diferença como ameaçadora e devorado as suas possibilidades de crescimento em todos os âmbitos. A passagem da ontologia, ou da totalidade, ao transontológico, isto é, a passagem do que está ao alcance do ser, para àquilo que está além do ser (do que está posto), ou seja, o “Outro”, é o que se busca definir como objeto de estudo a partir da noção de “exterioridade” de Dussel. Pretende-se atuar juntos às “Organizações Outras”, isto é, a externalidade da totalidade. Ou seja, as formas organizativas que escapam ao sistema dominante e são vistas por seus integrantes como exterioridades – e ganham adjetivações populares: vida aventureira, vida utópica, fuga do sistema etc. Toma-se, portanto, a exterioridade como categoria possível para uma analítica dos modos de existência organizacionais. Para Dussel (2005), o “Outro” é exterioridade de toda totalidade, porque é livre. Não está incluso. Entende-se que para conhecer e colaborar com o processo de construção do conhecimento sobre a gestão de coletivos em organizações “outras” seja necessário buscar uma proximidade com o objeto de estudo (o “Outro”, aquilo que não está dado, que não é o mesmo, na linguagem de Dussel), a fim de que a universidade se torne um espaço de debate e reflexão sobre formas não convencionais de vida comunitária, contribuindo para expandir o campo de estudo sobre Organizações Alternativas e Contra Hegemônicas (DOSSIÊ TEMÁTICO, 2017). Cumpre salientar que esse subcampo de estudo é por natureza interdisciplinar, uma vez que seu objeto de estudo é atravessado por diversas temáticas tradicionais do campo. O projeto em questão é fruto de uma iniciativa de Pesquisa e tem ligação direta com o grupo de pesquisa O2 já cadastrado no CNPQ. Além disso, durante o ano de 2018 foram realizadas várias ações de extensão, especialmente ligadas a parceria com a Associação Casa Luz da Colina da qual já se colheram frutos como trabalhos relacionados a disciplinas e possíveis publicações na área da extensão. Em várias visitas já feitas a associação, foi feito um diagnóstico pelos coordenadores e pelos alunos da situação administrativa atua da comunidade e possíveis auxílios que a universidade poderia oferecer em termos de conhecimentos aplicados. Foram mais de oito viagens feitas às custas do campus e dos coordenadores para levar a estruturação da parceira que corre risco de ser desfeita com a falta de alunos dispostos a trabalhar sem bolsas. Dados os custos e tempo de locomoção.

Beneficiário
Os principais beneficiários serão os membros das comunidades, associações e ecovilas, aos quais serão ofertadas as atividades de extensão.