“SEI LÁ SE NAQUELE TEMPO TINHA SENTIDO… ERA OBRIGAÇÃO!”: OS SENTIDOS DO TRABALHO REPRODUTIVO PARA MULHERES À LUZ DA TEORIA DA REPRODUÇÃO SOCIAL
Resumo:O presente estudo possui como propósito discutir quais são os sentidos do trabalho reprodutivo para mulheres em situação de vulnerabilidade socioeconômica de Varginha–MG, à luz da Teoria da Reprodução Social (TRS). A pesquisa possui bases qualitativas, e utilizou-se de entrevistas semiestruturadas com nove mulheres participantes das oficinas extensionistas do projeto “‘Escrevivivências’ Femininas: traçando linhas em educação, direitos humanos e políticas públicas em Varginha–MG” (CAAE — 60933622.0.0000.5142). A análise, fundamentada na Análise de Conteúdo em Bardin (2016), identificou sentidos diversos e contraditórios relacionados ao trabalho reprodutivo remunerado e não remunerado, articulando elementos materiais, simbólicos e afetivos (Antunes, 2009; Gaulejac, 2007). Os relatos apresentam como o trabalho reprodutivo se entrelaça com as construções sociais deste como uma obrigação feminina, muitas das vezes invisibilizados e não-remunerados (Federici, 2019b; 2021). Com destaque para os sentidos contraditórios, por um lado, orgulho e reconhecimento social; por outro, sobrecarga, dor física e ausência de valorização. Além disso, as histórias apresentadas pelas mulheres perpassam a construção deste trabalho como ato de amor e dever materno. Por meio da lente da TRS, é possível apontar ainda como as desigualdade de gênero, raça e classe são utilizadas pelo capital na organização do trabalho e no amortecimento das contradições do sistema capitalista. De modo que os sentidos do trabalho reprodutivo estão enraizados em construções sociais de amor, dever materno e solidariedade, mas compartilham sentidos similares aos trabalhos remunerados, apesar da falta de reconhecimento e valorização, especialmente nos trabalhos não remunerados. Portanto, espera-se que os resultados desta pesquisa possam contribuir para o campo da Administração, em especial para os estudos organizacionais voltados aos debates sobre as desigualdades de gênero, destacando principalmente a necessidade de reconhecer os impactos estruturais e a superexploração do trabalho reprodutivo na vida das mulheres.
Referência 1:ANTUNES, R. Os Sentidos do Trabalho: Ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. São Paulo: Boitempo, 2009. BARDIN, L. Análise de Conteúdo (trad: Luis Antero Reto). São Paulo: Edições 70, 2016.
Referência 2:FEDERICI, S. O Patriarcado do Salário: Notas sobre Marx, gênero e feminismo (v. 1). Boitempo Editorial, 2021. FEDERICI, S. Ponto zero da revolução: trabalho doméstico, reprodução e luta feminista.
Referência 3:GAULEJAC, V. Gestão como doença social: Ideologia, poder gerencialista e fragmentação social. Aparecida: Ideias e Letras, 2007.