CASAMENTO, MATERNIDADE E DIVÓRCIO: UMA ANÁLISE NARRATIVA DAS ESCREVIVÊNCIAS DE ELZA
Resumo:As manifestações culturais e estruturais da sociedade ocidental contemporânea são intrinsecamente violentas com as mulheres. Segundo Saffioti (2015), não se trata apenas de desvios individuais, mas representam um mecanismo estrutural de controle social contra corpos femininos. Por meio da análise de narrativa buscamos compreender as vivências de Elza, uma mulher parda, de 84 anos, sobre casamento, maternidade e divórcio. O método é qualitativo, o que auxilia na compreensão de como as pessoas constroem sentidos sobre passado, presente e futuro em narrativas para si mesmas e para sua audiência (Muylaert et al., 2014; Moutinho; Conti, 2015). Elza participou, em 2024, de oficinas de extensão do projeto “‘Escrevivivências’ Femininas: traçando linhas em educação, direitos humanos e políticas públicas em Varginha–MG” (CAAE 60933622.0.0000.5142). Compreendemos que a narrativa evidencia como a violência cultural opera como base ideológica do patriarcado, além de sustentar formas de violências como a direta e estrutural (Conti, 2016). Quando Elza relata vivências nas quais foi qualificada como “louca” ou “aquelas mulheres” com objetivo de desqualificá-la, ou ainda que teve de “aguentar” situações em sua vida, o que representa desvalorização. O que reforça atuação como controle ideológico sobre as mulheres, como esclarecem Federici (2019a; 2019b) e Saffioti (2001; 2015). As oficinas de extensão permitiram o acesso a mulheres com vivências diversas e complexas em suas singularidades, enquanto o diálogo entre autoras do feminismo marxita e o método de análise de narrativa permitiu compreender formas sutis de manutenção de violências e desigualdades de gênero. Uma importante contribuição deste trabalho é demonstrar como a vida das mulheres é violenta devido a estruturas patriarcais que as subjugam a diversas e sutis formas de inferiorização e exploração. Além do uso de um método que valoriza a narrativa que o sujeito faz de sua história no momento em que narra suas vivências.
Referência 1:CONTI, T. Os conceitos de violência direta, estrutural e cultural. 2016. Disponível em:http://thomasvconti.com.br/2016/os-conceitos-de-violencia-direta-estrutural-e-cultural/. Acesso em: 25 Ago. 2021
Referência 2:MOUTINHO, K.; CONTI, L. Análise narrativa, construção de sentidos e identidade. Psicologia: Teoria e Pesquisa, v. 32, n. 2, p. 1-8, abr./jun. 2015
Referência 3:SAFFIOTI, H. I. B. Gênero, patriarcado, violência. São Paulo: Expressão Popular; Fundação Perseu Abramo, 2015.