| Resumo: | A pesquisa investigou os cadernos manuscritos produzidos pelo major português Henrique deCarvalho durante sua expedição à região da Lunda, na África Central, entre 1884 e 1888. Assim, partiu-se da hipótese de que os cadernos não representam registros neutros, mas construções discursivasalinhadas ao eurocentrismo e à dominação simbólica, ainda que preservem fragmentos de historicidadeafricana. O trabalho fundamentou-se em autores como Anita Lucchesi (2014), Ann Stoler (2018),Elaine Ribeiro (2013) Ana Paula Tavares (1995), articulando conceitos de leitura a contrapelo e análiseintersticial para compreender arquivos coloniais como artefatos de poder. A metodologia envolveutranscrição paleográfica, organização sistemática em planilhas temáticas, identificação de categorias epadrões, e uso de ferramentas digitais (Voyant Tools, Zotero e Omeka) para indexação e visualização,mantendo postura crítica frente às limitações técnicas e epistemológicas dessas tecnologias. A análisepreliminar revelou que a estrutura organizada dos cadernos, com descrições minuciosas de insígnias,artefatos, costumes e edificações, constrói uma imagem de “Lunda” filtrada por interesses políticos ecientíficos da metrópole portuguesa. Contudo, emergem, nos detalhes e omissões, indícios dedinâmicas locais de poder, resistência e negociação, indicando que as populações da região Lunda nãose limitaram a uma postura passiva diante do avanço colonial. Dessa forma, destacamos que osCadernos de Levantamento Científico e Etnográfico operam simultaneamente como instrumento dedominação e repositório de fragmentos da experiência africana. Por fim, o estudo reforça a importânciade integrar metodologias sensíveis e eticamente comprometidas à análise de arquivos coloniais,contribuindo para a reconfiguração das narrativas históricas sobre a África Central.
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