“GRADES INVISÍVEIS”: EFEITOS EXTRAPENAIS E REPRODUÇÃO SOCIAL PARA MULHERES FAMILIARES DE PESSOAS EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE NO SUL DE MINAS GERAIS
Resumo:O encarceramento de uma pessoa pode causar rejeição e exclusão social aos familiares com quem ela tem laços afetivos, por meio da atribuição social de características negativas, chamadas por Goffman (2017) de estigmas de cortesia. Estudos anteriores mostraram que, por meio desses estigmas, mães são culpabilizadas pelos erros de seus filhos(as) (Guimarães et al, 2006; Mestre; Souza, 2021), e parceiras enfrentam violência durante visitas ao presídio, além de privações econômicas resultantes do encarceramento de seus companheiros, com quem dividiam o sustento do lar (Brum; Rossato; Najar, 2024). Esses estudos sugerem que diferentes dinâmicas familiares geram estigmas de cortesia específicos, dependendo do parentesco entre a mulher e a pessoa encarcerada. Com base em referenciais sobre os efeitos extrapenais do cárcere e na teoria da reprodução social, buscamos contribuir com estudos sobre o tema, propondo que, além do parentesco, a produção desses estigmas está relacionada, dialeticamente, a condicionantes de gênero, raça e classe. A pesquisa está em andamento, com entrevistas semiestruturadas com mulheres familiares de pessoas encarceradas no Sul de Minas Gerais. Até agora, foram realizadas oito entrevistas, duas presenciais (uma mãe e uma irmã) e seis em formato remoto (duas mães, uma esposa, duas namoradas e uma irmã). As entrevistas foram gravadas em áudio com autorização das participantes, via TCLE (CAAE: 87535825.8.0000.5142). Estamos realizando a transcrição das entrevistas para análise temática posterior, com base nos referenciais de efeitos extrapenais e reprodução social. Esperamos que a pesquisa contribua para ampliar as vozes dessas mulheres, destacando demandas por políticas públicas de acolhimento e assistência às familiares de pessoas privadas de liberdade que, por meio do descaso e dos estigmas sociais, acabam penalizadas por crimes que não cometeram e, assim, ficam presas em “graves invisíveis” impostas por uma sociedade que as julga e discrimina.
Referência 1:BRUM, R. R.; ROSSATO, C. R. P.; NAJAR, L. S. Experiencias de compañeras de presos varones dentro y fuera de las cárceles. Revista de Psicología, v. 42, n. 1, p. 363-401, 8 jan. 2024.
Referência 2:GOFFMAN, Erving. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. 4. ed. Tradução: Márcia Bandeira de Mello Leite Nunes. Rio de Janeiro: LTC, 2017.
Referência 3:GUIMARÃES, C. F. et al.. Homens apenados e mulheres presas: estudo sobre mulheres de presos. Psicologia & Sociedade, v. 18, n. 3, p. 48–54, set. 2006.