| Resumo: | O município de Poço Fundo, localizado no sul de Minas Gerais, preserva fortes vínculos com o espaço rural e suas tradições culturais. Entre elas, a Congada se destaca como manifestação afro-brasileira que reúne religiosidade, música e memória coletiva. A presença feminina, embora central para a manutenção dessa prática, ainda é marcada por contradições no reconhecimento social e simbólico. Este artigo tem como objetivo analisar o papel da mulher na construção cultural da Congada no município, considerando as relações de gênero e territorialidade presentes nesse contexto rural. O referencial teórico dialoga com a Geografia Cultural, a Geografia da Religião (Rosendahl, 2018) e os estudos de gênero na Geografia (Rossini, 1993), permitindo compreender o espaço da Congada como território simbólico atravessado por disputas de poder. Além disso, articula-se a noção de espaço vivido e de espacialidades paradoxais (Rose, 1993 apud Silva, 2010), para evidenciar a tensão entre visibilidade e invisibilidade da atuação feminina. A metodologia baseou-se em levantamento bibliográfico, pesquisa documental e entrevistas semiestruturadas com mulheres integrantes dos Ternos de Congo. O enfoque qualitativo buscou captar percepções sobre sua participação na organização dos cortejos, na confecção de trajes, no cuidado com as crianças e no desempenho de funções musicais e religiosas. Os resultados indicam que, em Poço Fundo, as mulheres ocupam funções essenciais, chegando inclusive a assumir cargos de liderança formal. Entretanto, persiste uma “visibilidade mascarada”, em que sua contribuição material não corresponde ao reconhecimento simbólico. A discussão evidencia que, embora as congadeiras ressignifiquem a tradição e consolidem territorialidades próprias, permanecem barreiras ligadas ao patriarcado e às hierarquias culturais. Conclui-se que compreender a Congada sob o prisma da ruralidade e do gênero permite reconhecer a centralidade da mulher na reprodução e renovação da cultura popular, evidenciando como práticas cotidianas reforçam identidades coletivas e memórias de resistência no espaço rural sul-mineiro.
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