| Resumo: | O objetivo desse trabalho é apresentar um relato sobre o projeto extensionista que acontece na Universidade Federal de Alfenas Unifal-MG desde 2019 e teve a sua quinta edição em 2025, intitulada “Curso de Filosofia Política: Gestão Pública e Sociedade”. A proposta do projeto parte da perspectiva metodológica freiriana, centrada na eleição da democracia como tema gerador, acompanhando, portanto, os princípios da educação libertária (Freire, 1988; 2003), de modo que se unem questões sociais do momento e as pesquisas dos docentes envolvidos na proposta, ao eleger desenvolver temas. O decorrer do curso se opera por meio de aulas expositivas e dialogadas, leituras extraclasse e espaço para debates. Durante os anos em que o curso já foi desenvolvido, os principais resultados foram: (i) a presença contínua de um público interessado nos temas, que envolve atores políticos, estudantes e comunidade do sul de Minas (e nacional, no caso da edição realizada durante a pandemia); (ii) a publicação de três livros oriundos dos temas que os professores debateram, promovendo o curso amplamente (Oliveira et al., 2020; Costa et al., 2022; Zwick et al., 2025), e (iii) a apresentação em nível internacional no evento comemorativo dos 40 anos da democracia na Argentina (Costa, 2023), que englobou temas voltados à memória e à história da democracia na América Latina. Trata-se de uma construção coletiva entre o saber popular e o acadêmico, para o que se busca encontrar o melhor do que essa união tem a ensinar, cumprindo-se o papel da educação nas instituições democráticas, assinalado por Zorzan e Ecco (2012) como o de permitir que os sujeitos tomem consciência da sua dimensão cidadã enquanto sujeitos de natureza social.
Na primeira edição, ocorrida em 2019, o curso extensionista “Um livro, várias lições (ULVL)” reuniu mais de 300 inscritos e foram propostas seis aulas cujas discussões giraram em torno de grandes temas como economia e suas implicações na vida cotidiana, discurso de ódio, direita e esquerda e o papel da literatura no combate ao autoritarismo. Os encontros se deram entre agosto e dezembro de 2019. Na ocasião, foi possível debater sob a ótica de várias obras clássicas da filosofia política, buscando nas raízes da antiguidade grega até pensadores contemporâneos os parâmetros para um entendimento sobre como o homem vem, ao longo dos séculos, organizando seus sistemas políticos. O curso teve duração total de 40 horas, 8 módulos com 5 horas cada, 4 horas presenciais e 1 hora de atividades extraclasse. Ao final foi promovida uma mesa redonda composta pelos professores para discutir a correlação entre os temas, naquilo que tange à democracia atual, tendo sido interessante esse encerramento na promoção de uma leitura integradora dos temas.
Em 2021, a segunda edição deu-se em versão online, dado o quadro da pandemia de Covid-19 no mundo. Participaram alunos de outros Estados da Federação, e o projeto ganhou projeção nacional, com mais de 400 inscritos. Quanto à temática, houve aprofundamento na forma, dando a ela contornos mais definidos, tendo sido mantido como eixo central a democracia. A proposta foi produzir um conjunto de conhecimentos capazes de auxiliar na visão geral da democracia e refletir sobre as suas implicações. O curso reforçou o caráter interdisciplinar de união das ciências humanas e sociais aplicadas, adquirindo um perfil de oferta plural de vários ramos do conhecimento, da filosofia à sociologia, bem como da história à economia. Foram cinco encontros virtuais e com didática apropriada, preservando o espaço de debate, interação com os participantes e prezando pelo tratamento rigoroso acadêmico-científico dos conteúdos. Cada aula foi organizada a partir de uma obra predominante, à escolha do ministrante, segundo a metodologia geral do curso, apresentando-se, também, autores e obras complementares ao entendimento geral do tema.
Ao enfrentamento de um cenário político em que sobram discursos apaixonados e enebriados pela vontade da defesa sobre o que se pensa, em um esforço de simples afirmação das próprias crenças, a tônica das edições foi recorrer a diferentes fontes teóricas. Verificava-se uma ausência de checagens sobre informações e a menção a cientistas se fazia quase ausente nos debates envoltos à democracia. Discutiam-se temas atinentes em outras esferas (social ou histórica), refletindo o uso das denominadas heurísticas de confirmação. Nesse ambiente, propício para a refutação das objetividades científicas, era necessária a divulgação de obras e autores que formaram os pensamentos basilares do conhecimento histórico, filosófico, sociológico e econômico. Assim, o curso firma-se pela interdisciplinaridade (história, filosofia, sociologia, economia), buscando contribuições para uma visão mais ampla dessa forma de governo tão antiga quanto disseminada e atualmente posta em cheque em muitas partes do mundo. A duração das aulas e tarefas resulta em um curso que soma 40 horas de formação.
O desafio de concretizar a terceira edição deveu-se ao fato de ser ano de eleições presidenciais. A exemplo da edição de 2021, pelo tema “Democracia: desafios e possibilidades”, em 2022 buscou-se explorar problemáticas do momento, trazendo à lume discussões pertinentes a questões limítrofes vividas no país. Esta edição reservou duas novidades. A participação de estudantes como estagiários na proposta, exercendo o trabalho de apoio à organização (fichas de inscrição, divulgação com material de comunicação previamente produzido ou supervisionado, entre outros afazeres). A ficha de inscrição teve a opção de adquirir o livro didático da edição anterior, o qual também se tornou disponível gratuitamente na versão online. As aulas aconteceram entre 24 de setembro a 29 de outubro de 2022, aos sábados pelas manhãs.
Para a quarta e mais recente edição do curso, seguiu-se a tradição das três edições anteriores, com três bolsistas auxiliando no projeto, bem como a organização em cinco aulas, sendo as duas primeiras na primeira data, durante todo o sábado. O curso continuou gerando adesão e interesse, dado que o ano de 2024 também foi um ano eleitoral e o contexto municipal evocou a formação de natureza política por parte da universidade como forma de enfrentamento dos desafios vindouros. Em 2024 o curso ascendeu a um outro patamar, e passou a estar mais integrado às práticas de pesquisa da pós-graduação, em tendo a coordenação e vice sido assumidas por docentes ligados ao mestrado em Gestão Pública e Sociedade. As aulas foram ministradas na sala do mestrado, ao que a comunidade teve acesso à estrutura de que dispõe a universidade para a formação de profissionais na área pública. Com a execução em 2024, o curso continuou gerando adesão e interesse, visto o contexto municipal ter evocado a formação de natureza política por parte da universidade como forma de enfrentamento dos desafios vindouros.
As edições do curso sobreviveram diante de muitas adversidades, inclusive no período da pandemia, provando o potencial que tem a proposta em termos de perspectivas futuras. Assim, para o ano de 2025, o evento cresce ao contar com o apoio do PPGPS, além da pró-reitoria de extensão e cultura. Então, nesse momento em que alcançamos mais um relato sobre essa experiência, isso se torna fundamental também para repensarmos o destino dos espaços da extensão na instituição e no país.
A proposta de extensão desenvolvida ao longo desses anos tem em seu próprio relato uma força de resistência à precarização da universidade pública e, também, o propósito de firmar a interação dialógica junto a distintos atores sociais, seja na sua metodologia seja em seus objetivos. Os encontros, conduzidos de modo dinâmico, colocando os participantes em diálogo com temáticas contemporâneas voltadas à democracia, auxiliam no desenvolvimento de outra visão sobre os ordenamentos sociais.
A indissociabilidade da pesquisa com o ensino e a extensão, tem sido presente, em especial quando o projeto passou a agregar estudantes como bolsistas, não apenas cursistas. Assim, eles se inteiram e tomam parte dos processos decisórios no curso, além de adquirir experiências que lhes servem no âmbito profissional posteriormente. Isso é um fator que tem auxiliado a consolidar a formação discente, já que é ofertado o acesso a obras de pensadores clássicos e contemporâneos, aprofundando conhecimentos, criando mais elementos para se posicionar criticamente diante da realidade.
A partir desse conjunto de possibilidades que uma proposta de extensão é capaz de trazer, a sociedade recebe um forte impacto social, pois criam-se elementos para analisar objetivamente a condição brasileira atual da cidadania, do modelo democrático, da organização partidária, entre outros. Espera-se que, para novas edições do curso, haja a continuidade da prática de publicações a partir das aulas ministradas, alcançando a produção de livros e artigos que tragam não apenas as concepções dos pesquisadores e suas sínteses analíticas sobre as obras estudadas, como também a divulgação da experiência de uma formação de educação política que obedeça aos critérios científicos. Espera-se também a manutenção da oferta de aulas expositivas cujo teor se afaste das concepções rasas e inflamadas da política, caminhando rumo a um entendimento refugiado de subjetivismos e parcialidades antidemocráticas. Sobretudo, vale ressaltar o papel da universidade pública na construção de um ambiente saudável e democrático.
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