A CULTURA A PARTIR DO CIRCUITO INFERIOR DA ECONOMIA URBANA
Resumo:Este artigo investiga a produção do espaço urbano a partir da dialética entre os circuitos superior e inferior da economia, conceito fundamental elaborado por Milton Santos para desvendar as lógicas desiguais que moldam o território. Argumenta-se que, enquanto o circuito superior, integrado aos fluxos globais do capital, opera através da produção de um “espaço abstrato, homogêneo, controlado e voltado para a maximização do valor de troca” (SANTOS, 2000, p. X), o circuito inferior constitui-se como um espaço de sobrevivência, criatividade e resistência, produzindo um “espaço vivido”, marcado pela heterogeneidade e pelo valor de uso (LEFEBVRE, 1991). Neste contexto, a cultura emerge não como um mero reflexo, mas como um ato de rebeldia. Ela se materializa em práticas como rodas de samba, batalhas de rima e grafites, que Harvey (1989) caracterizaria como “revoltas do espaço-tempo”, criando heterotopias que desafiam a aceleração e a homogeneização impostas pela acumulação flexível. Tais manifestações são, portanto, a materialização de “lugares-saberes” (SANTOS, 1996) que se contrapõem aos “espaços-fluxos” dominantes. Estas contra-narrativas se gestam em “territórios de diálogo” – como praças, becos e feiras livres –, fomentados pela ausência do Estado. Nelas, forja-se o que se pode denominar um “consumo ordinário da ocupação”, uma economia relacional e não mercantilizada cuja moeda de troca é a sociabilidade, a ancestralidade e o reconhecimento cultural, distanciando-se radicalmente do consumo como principal objeto de sustentação da vida social legitimado pelo mercado. Conclui-se que a arte de rua e as práticas culturais analisadas transcendem a expressão artística. Elas são, nas palavras de Milton Santos (2000), práticas de “reexistência” que territorializam o espaço, conferindo-lhe identidade e significado para além da lógica do lucro, tensionando constantemente a produção capitalista do espaço e propondo alternativas concretas de vida.
Referência 1:HARVEY, David. A Condição Pós-Moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. São Paulo: Loyola, 1989
Referência 2:LEFEBVRE, Henri. The Production of Space. Oxford: Blackwell, 1991.
Referência 3:SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção. São Paulo: EdUSP, 1996.