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Ações vigentes

MEMÓRIAS DOS POVOS ORIGINÁRIOS: A LUTA PELA TERRA E PELOS DIREITOS À DIVERSIDADE NO TERRITÓRIO CAMPOMEIENSE

Apresentação
Esta proposta é fruto de uma parceria entre o Assentamento Quilombo Campo Grande (MST, Campo do Meio, MG), o Centro de Referência em Direitos Humanos do Território Sul de Minas Gerais (CRDH Sul), a Cátedra Unesco da Fiocruz – "Diálogos entre saberes para transformações planetárias" –, o projeto Acervo de Memória e História do Orgulho LGBTQIA+ no Sul de Minas (AMHOR), o Laboratório de Políticas do Clima e Historicidades no Antropoceno (LAPACHA), o Instituto Mora (México) e pesquisadores(as) independentes de diferentes nacionalidades. Seu objetivo é articular ações que promovam a memória da luta pela Terra no Sul de Minas Gerais, mobilizando desde heranças cosmológicas ameríndias e afrodiaspóricas até as lutas mais recentes por justiça social e ambiental na região. O programa articulará atividades ligadas à arqueologia dos primeiros habitantes da região, à organização de um centro de memória, à realização de entrevistas e à produção de roteiros educacionais ligados ao turismo de memória.

Objetivos
Esta proposta visa contribuir para o desenvolvimento de ações voltadas para o fortalecimento dos conhecimentos ecológicos produzidos por comunidades e das lutas em defesa de direitos de gênero, sexualidade e raça em defesa por justiça social, identitária e ambiental na nossa região. Para isso, buscaremos identificar conexões entre 1) as ecologias desenvolvidas pelos habitantes originários da região; 2) as resistências ecológicas de pessoas escravizadas e trabalhadores(as) pobres submetidos(as) ao modelo agroexportador hegemônico em nosso espaço; 3) memórias sobre violências e resistências de mulheres e população LGBTQIA+ e 4) as práticas de resistência agroecológica desenvolvidas pela comunidade do Assentamento Quilombo Grande nas três últimas décadas. Esses elos serão reconstituídos por meio de atividades colaborativas e de intercâmbio de conhecimentos que envolvem trabalhos arqueológicos, letramento racial e de gênero, oficinas de história oral, realização de entrevistas orais, organização de acervos, musealização e atividades pedagógicas, como a proposta de visitação aos espaços e a construção de roteiros de turismo de memória. Com isso pretendemos estreitar os laços entre conhecimentos tradicionais e conhecimento acadêmico com vistas à promoção da justiça social, identitária e ambiental num cenário marcado, cada vez mais, pela precarização do trabalho e das condições de vida, pelo sexismo, o racismo e a misoginia, pela LGBTfobia e pela incerteza climática.
ODS 4 – Educação de Qualidade;ODS 5 – Igualdade de Gênero;ODS 11 – Cidades e Comunidades Sustentáveis;ODS 13 – Ação Contra a Mudança Global do Clima;ODS 18 – Igualdade Étnico-Racial

Justificativa
Estudos recentes têm demonstrado uma relação direta entre colonialismo racialista e o Antropoceno, termo que designa o conjunto de mudanças biogeofísicas aceleradas que ameaçam a habitabilidade planetária em um futuro próximo (Lightfoot et al., 2013; Lewis; Maslin, 2015; Davis; Todd, 2017; Yusoff, 2018; Mirzoeff, 2018; Ghosh, 2021; Ferdinand, 2022; Moore, 2022; Povinelli, 2024; Tsing, 2024; Oliveira, 2025). Todos esses estudos apontam para as consequências ecológicas em escala planetária de uma visão de mundo violenta, herdada diretamente do processo de colonização imposto a este território e seus habitantes desde o final do século XV. Essa visão de mundo, “cosmologia” ou perspectiva ontológica, autoriza o exercício de um poder soberano por parte de determinados agentes humanos, qualificados como “sujeitos”, em relação a todo um conjunto de entidades desumanizadas, vivas ou não vivas (a este respeito, vide Povinelli, 2023), que estariam, passivamente, como “objetos”, à disposição de seus projetos. Essa matriz ontológica colonial, seja em sua versão “analógica” (i.e., cristã) ou “naturalista” (i.e., racionalista ou científica) (vide Descola, 2015), tem sido imposta a uma diversidade de comunidades indígenas que desenvolveram, nas Américas, havia pelo menos 15 mil anos (Bueno, 2019), cosmologias plurais, fruto de tradições de negociação respeitosa da vida com o conjunto de seres que constituíam os seus territórios. O mesmo pode ser dito em relação aos povos africanos escravizados, que foram arrancados de sistemas ecológicos semelhantemente baseados em ontologias relacionais e não antropocêntricas para realizarem trabalhos forçados nas monoculturas coloniais. Essa matriz cosmológica colonial tem funcionado, no Brasil, por meio do rebaixamento ontológico de pessoas racializadas para a subtração de suas forças de trabalho e de seus territórios, transformados em lucrativas monoculturas. Tem-se, portanto, que é o modelo da plantation escalável, depois transplantado para as fábricas modernas e para a mineração de dados contemporânea (Faustino; Lippold, 2023), que funda todo o modelo de relações sociais e produtivas responsáveis pelo Antropoceno. Além disso, é importante destacar que as discussões acerca das relações entre natureza e cultura, de modo apartado, alimenta concepções relativas ao entendimento fragmentado e hierárquico entre o que é chamado de feminino e de masculino. O primeiro, associado à natureza, simbólica e politicamente, apresenta uma imagem que colabora para produzir a ação invasiva e extrativista do “masculino” (a cultura, o público, o capital) sobre o que “é natural”. A exploração da natureza estaria, desta forma, associada ao cispatriarcado e ao capitalismo, entendidos como cultura e progresso pelo discurso dominante. Há trabalhos que apontam a existência de uma ecologia queer, não como aquela defendida e praticada por pessoas e grupos(auto) definidos como queer, mas pela ideia de que a ecologia e a ética queer teriam em comum o questionamento da cisheteronormatividade e de todas formas de hierarquia e opressão sobre os corpos (Morton, 2010). Por isso, é justamente no seu contraponto, isto é, nos conhecimentos e tradições de povos cujas vidas se dão justamente em resistência ao modelo capitalista/cispatriarcal (Castro, 2019; Mortimer-Sandilands; Erickson, 2010, Amaral, 2023), que encontraremos alternativas viáveis ao modo de vida que nos conduz ao colapso. Esses conhecimentos constituem um patrimônio que ultrapassa categorizações como “cultural” e “natural”. Poderíamos, talvez, falar, portanto, em “patrimônios cosmológicos” (Lowande, 2023a; 2024) e vivenciais, cujo cultivo é fundamental para a garantia de uma habitabilidade planetária mais justa e plural. As universidades podem contribuir com importantes instrumentos para fortalecer o modo de compor ecologias desses povos resistentes em nosso território, e para compreender as relações interseccionadas do trabalho com problemas ligados à hierarquia de gênero e sexualidade e ao racismo capitalista. As ações de extensão são muito apropriadas para esse tipo de “envolvimento”, como diria Antônio Bispo dos Santos (2023), pois incentiva o protagonismo das comunidades parceiras e o caráter interdisciplinar dos projetos. Conhecimentos teóricos, técnicos e práticos produzidos na universidade podem contribuir com experiências, métodos de planejamento, organização, execução e registro, além da disponibilização de recursos estratégicos, de modo a superar barreiras para a realização dos objetivos dessas comunidades, abrindo espaço para sua atuação protagonista em instituições públicas. Da mesma forma, os conhecimentos acadêmicos também podem se enriquecer e ganhar em relevância com o aporte de saberes e relações produzidos pelas comunidades que compõem parcerias como esta. A potencialização de sistemas agroecológicos de resistência, por meio do fortalecimento de suas memórias, que envolvem questões de trabalho, raça, gênero e sexualidade, é um caminho muito efetivo para que as universidades possam contribuir para o enfrentamento do problema do aquecimento global, da violência de gênero e sexualidade, do racismo e para a promoção da justiça social, identitária e ambiental.

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