SIEC
Sistema de Informação de Extensão e Cultura
Sistemas Integrados UNIFAL-MG

Ações vigentes

MANEJO DA LOMBALGIA CRÔNICA NA ATENÇÃO PRIMÁRIA POR MEIO DE EXERCÍCIOS TERAPÊUTICOS EM GRUPO E EDUCAÇÃO EM DOR

Apresentação
A lombalgia crônica, definida como dor lombar persistente por mais de três meses, representa a principal causa global de anos vividos com incapacidade segundo o estudo Global Burden of Disease (GBD, 2020), afetando aproximadamente 18 a 25% dos adultos brasileiros, o que corresponde a cerca de 40 milhões de pessoas (MALTA et al., 2017). O impacto econômico dessa condição é substancial, gerando custos diretos e indiretos superiores a R$ 10 bilhões anuais no Brasil (SANTOS et al., 2019), incluindo despesas assistenciais, auxílios-doença e perdas de produtividade. A compreensão contemporânea da lombalgia crônica transcende o modelo biomédico tradicional centrado exclusivamente em lesão tecidual, adotando o modelo biopsicossocial proposto por Engel (1977) e refinado para dor musculoesquelética por Waddell (1987). Esse paradigma reconhece que a experiência dolorosa resulta da interação complexa entre fatores biológicos (sensibilização central e periférica, alterações neuroplásticas, descondicionamento físico), fatores psicológicos (cinesiofobia, catastrofização, ansiedade, depressão, baixa autoeficácia) e fatores sociais (demandas ocupacionais, suporte social, aspectos culturais, sistemas de compensação). A teoria do medo-evitação, formulada por Vlaeyen e Linton (2000), constitui modelo explicativo central para compreender a cronificação da lombalgia. Segundo essa teoria, indivíduos que interpretam catastroficamente a dor inicial como sinal de lesão grave desenvolvem cinesiofobia (medo de movimento e relesão), levando a comportamentos de evitação de atividades físicas e movimentos percebidos como ameaçadores. Paradoxalmente, essa evitação resulta em descondicionamento físico, atrofia muscular, redução de amplitude de movimento e hipersensibilização do sistema nervoso, perpetuando e amplificando a dor em ciclo vicioso. A metanálise de Wertli et al. (2014) demonstrou que cinesiofobia e catastrofização no início do quadro predizem fortemente incapacidade funcional persistente e transição para cronicidade, com odds ratios de 2,2 a 3,5. A quebra desse ciclo vicioso mediante exposição gradual a movimentos e atividades temidas, reconhecimento de capacidades preservadas e reestruturação cognitiva de crenças disfuncionais constitui mecanismo terapêutico fundamental para o efetivo tratamento da lombalgia. A adesão sustentada a programas de exercícios, essencial para a manutenção de benefícios clínicos, é influenciada por fatores psicológicos relacionados à mudança comportamental. Na Teoria Social Cognitiva de Bandura (1986), a autoeficácia (crença na própria capacidade de adotar comportamentos necessários para alcançar objetivos) constitui determinante central da adoção e manutenção de comportamentos de saúde. Martinez-Calderon et al. (2018) indicam que maiores níveis de autoeficácia estão associados a menor dor e incapacidade em condições musculoesqueléticas crônicas. Nesse contexto, exercícios supervisionados em grupo podem favorecer a autoeficácia por meio de experiências de sucesso, observação de pares e encorajamento profissional. De forma complementar, a Teoria da Autodeterminação (DECI; RYAN, 2000) destaca que a adesão a longo prazo depende da satisfação das necessidades de autonomia, competência e relacionamento, dimensões frequentemente favorecidas em programas de exercícios realizados em grupo. A efetividade de exercícios terapêuticos para lombalgia crônica está solidamente estabelecida em revisões sistemáticas e metanálises de ensaios clínicos randomizados. A revisão Cochrane de Hayden et al. (2021), incluindo 249 estudos com 24.486 participantes, concluiu que exercícios reduzem dor e incapacidade funcional em lombalgia crônica com nível de certeza de evidência moderado, apresentando diferenças médias padronizadas de 0,37 para dor (IC95%: 0,29 a 0,45) e 0,47 para incapacidade (IC95%: 0,39 a 0,54) quando comparados a controles inativos, equivalentes a aproximadamente 7,5 pontos em escala de 0 a 100 para dor e 6,9 pontos no Oswestry Disability Index, magnitudes consideradas clinicamente relevantes. Os autores destacaram que exercícios combinando fortalecimento, controle motor e exercícios aeróbicos parecem superiores a modalidades isoladas, e programas individualizados e supervisionados tendem a produzir maiores efeitos que programas genéricos ou não supervisionados. Diretrizes clínicas internacionais incorporam exercícios como intervenção de primeira linha. A diretriz do National Institute for Health and Care Excellence (NICE, 2020) recomenda programa de exercícios como parte de abordagem combinada, incluindo educação e suporte ao autocuidado para lombalgia crônica (recomendação forte, evidência de alta qualidade). A diretriz do American College of Physicians (QASEEM et al., 2017) recomenda exercício, terapia multidisciplinar de reabilitação, acupuntura, yoga, tai chi, manipulação espinhal e terapia cognitivo-comportamental como tratamentos não farmacológicos de primeira linha para lombalgia crônica, reservando farmacoterapia para casos não responsivos. A diretriz brasileira de lombalgia do Ministério da Saúde (BRASIL, 2014) recomenda orientação para permanecer ativo e programa de exercícios supervisionados como pilares do tratamento na atenção básica. Entretanto, heterogeneidade substancial de efeitos entre estudos sugere que efetividade varia conforme características dos participantes, tipo específico de exercício, formato de entrega, dose, duração e contexto. Permanece incerto se exercícios supervisionados em grupo são superiores, equivalentes ou inferiores a orientação para exercícios domiciliares em populações específicas como naquelas pessoas atendidas na Atenção Primária a Saúde. A metanálise de Jordan et al. (2010) comparando exercícios supervisionados versus não supervisionados encontrou diferença média padronizada de apenas 0,08 (IC95%: -0,11 a 0,28, p=0,42) para incapacidade funcional, porém com heterogeneidade dos estudos de 71%, indicando variabilidade por características dos participantes, intensidade de supervisão e qualidade metodológica dos estudos incluídos. Análise de subgrupos identificou tendência de maiores benefícios de supervisão em participantes com maior incapacidade basal, sugerindo necessidade de personalização das intervenções. A Atenção Primária à Saúde constitui a porta de entrada preferencial e ordenadora do cuidado no Sistema Único de Saúde brasileiro, sendo responsável pela resolutividade da maioria das demandas, além de assegurar a longitudinalidade, a coordenação da rede e a integralidade da atenção (BRASIL, 2017). Nesse contexto, as condições musculoesqueléticas, especialmente a lombalgia, figuram entre os principais motivos de procura nas Unidades de Saúde da Família, representando cerca de 12 a 18% das consultas (OLIVEIRA et al., 2020). Apesar dessa elevada demanda, documentos como o Caderno de Atenção Básica nº 19 (BRASIL, 2012) ainda apresentam recomendações gerais, com limitado detalhamento para a implementação de programas estruturados de exercícios terapêuticos na Atenção Primária à Saúde. Diante deste contexto, o presente projeto de extensão se propõe a prestar assistência, de forma sistematizada e profissional, a adultos usuários do SUS, portadores de dor lombar crônica, que frequentam a Atenção Primária em Saúde do município de Alfenas-MG. Alinha-se à Política Nacional de Extensão Universitária, especialmente no que diz respeito à formação cidadã, à transformação social e à articulação com o ensino e a pesquisa. Suas ações objetivam a promoção de saúde e redução da dor, bem como a melhora da funcionalidade e qualidade de vida de pessoas portadoras de lombalgia há pelo menos 3 meses. Ao integrar ensino, pesquisa e extensão envolvendo os estudantes e comunidade, o projeto contribuirá para a formação cidadã dos acadêmicos, gerando impacto social, pois a educação continuada e a atenção profissional aos participantes poderão promover a redução dos sintomas dolorosos, melhora da capacidade funcional, redução de afastamento do trabalho e licenças médicas, melhora da performance profissional, bem como a melhora da qualidade de vida e integração social.

Objetivos
OBJETIVO GERAL: Implantar um programa de tratamento fisioterapêutico sistematizado, baseado em exercícios terapêuticos em grupo e em estratégias educacionais, para a redução da dor em pessoas portadoras de lombalgia crônica atendidas na Atenção Primária do Município de Alfenas-MG. OBJETIVOS ESPECÍFICOS: Para o público alvo (usuários da Atenção Primária em Saúde): - Reduzir a intensidade da dor em região lombar - Melhorar a capacidade funcional - Melhorar a qualidade de vida - Reduzir o nível de sedentarismo e cinesiofobia - Incentivar a prática de exercício físico - Promover ações de educação em dor, com foco na promoção do autocuidado, da autoeficácia e prática dos exercícios terapêuticos de forma regular. Para os acadêmicos: - Integrar conhecimentos teórico-práticos relacionados ao manejo fisioterapêutico da lombalgia crônica na Atenção Primária, articulando conteúdo das disciplinas de graduação com a atuação em contextos reais e supervisionados. - Desenvolver competências profissionais de natureza clínica, ética, comunicacional e interprofissional, bem como habilidades de trabalho em equipe, planejamento, liderança e gestão de ações em saúde. - Fortalecer competências e habilidades relacionadas manejo fisioterapêutico da lombalgia crônica por meio dos exercícios terapêuticos e da educação em dor. - Fortalecer a interação dialógica com a comunidade, reconhecendo demandas, promovendo ações contextualizadas e contribuindo para a integralidade do cuidado. - Estimular o pensamento crítico e a produção científica, por meio da sistematização de experiências, coleta e análise de dados e elaboração de produtos acadêmicos vinculados ao projeto. - Ampliar o compromisso social e a formação cidadã, por meio da participação em ações extensionistas voltadas à promoção da saúde na comunidade acadêmica.
ODS 3 – Saúde e Bem-Estar

Justificativa
A lombalgia crônica afeta aproximadamente 570 milhões de pessoas globalmente, constituindo-se na primeira causa de incapacidade entre todas as condições de saúde quando medida em anos vividos com incapacidade (GBD, 2020). No Brasil, um estudo transversal com 3.182 indivíduos, de ambos os sexos, com vinte anos ou mais, residentes em Pelotas, Rio Grande do Sul, mostrou uma prevalência de dor lombar crônica de 4,2%. As variáveis sexo, idade, situação conjugal, escolaridade, tabagismo, índice de massa corporal, trabalho deitado, carregar peso e realizar movimento repetitivo mostraram associação com presença de dor lombar crônica (SILVA; FASSA; VALLE, 2004). O impacto previdenciário da lombalgia é considerável. Dados do Ministério da Previdência Social indicam que lombalgia responde por 30 a 35% dos auxílios-doença concedidos entre distúrbios osteomusculares, correspondendo a 142.000 benefícios concedidos em 2021, custando R$ 2,8 bilhões aos cofres públicos (BRASIL, 2022). Além dos afastamentos formais, trabalhadores com lombalgia crônica faltam de sete a doze dias adicionais ao trabalho por ano quando comparados a trabalhadores sem a condição (FERREIRA et al., 2011) e, mesmo quando trabalham com dor, apresentam redução de 20 a 30% da capacidade produtiva, fenômeno denominado presenteísmo (STEWART et al., 2003). Apesar das vastas evidências sobre a efetividade de exercícios no tratamento da lombalgia crônica, persistem lacunas relevantes no contexto brasileiro e na população atendida na Atenção Primária à Saúde. Não foram encontrados ensaios clínicos randomizados no Brasil que avaliem a efetividade dos exercícios supervisionados em grupo para o controle da lombalgia crônica na Atenção Primária a Saúde. Também não foram encontrados estudos nacionais que investiguem o papel de fatores psicossociais, como cinesiofobia e catastrofização da dor, como mediadores da melhora funcional após intervenções baseadas em exercício. Além disso, faltam protocolos viáveis para implementação nas Unidades Básicas de Saúde com os recursos disponíveis e participação de residentes multiprofissionais. Além disso, ainda são escassos projetos que integrem pesquisa clínica, formação de recursos humanos e ações de extensão na Atenção Primária. Adicionalmente, o projeto alinha-se prioridades institucionais e de políticas públicas. Alinha-se com a Política Nacional de Atenção Básica (BRASIL, 2017), que preconiza resolutividade na Atenção Primária, cuidado longitudinal e trabalho em equipe multiprofissional. Contribui para os objetivos estratégicos do Plano de Desenvolvimento Institucional da UNIFAL-MG 2026-2030, particularmente o OE7 (ampliar atividades de extensão com impacto social), OE11 (integrar ensino-serviço-comunidade) e OE13 (desenvolver pesquisa aplicada e inovação tecnológica).

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